Dor Crônica – Consequências Graves da Dor Crônica
Se você quer saber qual é a relação oculta entre Dor Crônica e Saúde Mental, fique até o final deste artigo, porque o Dr. Willian Rezende, médico neurologista e que no seu canal do YouTube fala sobre Dor, Sono, Parkinson, Emoções e Neurologia Geral, vai abordar sobre isso.
Relação Oculta: Dor Crônica e Saúde Mental – Desvendando o Impacto na sua Vida
Neste artigo, vamos explicar sobre a relação entre dor crônica e saúde mental, abordando esse tema que é crucial e, muitas vezes, negligenciado. Então, preparamos este conteúdo para desmistificar essa conexão complexa e oferecer informações valiosas para quem sofre com dor persistente.
O que é Dor Crônica?
Primeiramente, dor crônica é aquela dor que persiste por um período prolongado, geralmente por mais de três meses, mesmo após a cura de uma lesão, uma lesão inicial, ou na ausência de uma causa claramente identificável.
Ela pode se manifestar de diversas formas, como dores nas costas, lombalgia crônica, fibromialgia, artrite, artrose, enxaqueca crônica, neuropatia diabética, outras dores neuropáticas e muitas outras condições que causam dor de uma maneira crônica.
Impacto da Dor Crônica na Saúde Mental
A dor crônica não afeta apenas o corpo, mas também a mente. A convivência diária com a dor pode desencadear uma série de transtornos mentais, que por sua vez podem agravar a percepção de dor, criando um ciclo vicioso.
Vamos explorar alguns desses transtornos.
Catastrofização
Um clássico é a catastrofização, de catástrofe mesmo, em que há tendência de interpretar a dor de uma forma exagerada e negativa, como se tudo fosse uma catástrofe, antecipando o pior e sentindo-se impotente diante dela.
Esse pensamento catastrófico amplia a sensação de dor, alimenta a ansiedade e cria até uma visão de mundo negativa, onde tudo vai dar errado porque para a pessoa tudo dá errado, porque ela só sente dor.
Solidão
Outro fenômeno é a solidão, porque a dor crônica pode levar ao isolamento social, à medida que as atividades prazerosas se tornam limitadas e a pessoa se sente incompreendida pelos outros.
O outro vai virar, “está com dor de novo, de novo você está com dor? Você não está fazendo isso para chamar atenção?”. Então, ela acaba se sentindo muito isolada das outras pessoas e ficando só em casa, acaba não saindo para coisas de lazer, para demais atividades, não fica querendo encontrar os outros, porque não sente conexão e é muito fácil os demais não terem empatia com quem tem dor crônica.
A solidão intensifica o sofrimento emocional e a sensação de desamparo da pessoa.
Depressão
Outro é a própria depressão, uma vez que a dor persistente pode minar a alegria de viver da pessoa, levando a uma tristeza profunda, uma perda de interesse na vida, alterações no sono, no apetite e até mesmo dando pensamentos suicidas (existem aquelas que se suicidam mesmo devido às dores muito intensas e crônicas).
A depressão agrava a dor e dificulta a busca por um tratamento. A pessoa acaba ‘deixando para lá’ porque a depressão faz com que ela não faça as coisas que têm que ser feitas.
Ansiedade
A incerteza sobre o futuro, a pessoa não saber se vai ficar livre da dor ou não, a frustração para as limitações dos tratamentos, das coisas que não resolvem a dor, o medo da dor, de a dor acabar ficando mais forte, intensificada, tudo isso pode desencadear crise de ansiedade e até mesmo ataques de pânico e outros transtornos ansiosos.
Vitimização
E também tem a vitimização, a sensação de injustiça, ter a vida controlada pela dor pode levar a pessoa a vitimização e ela se colocar no papel de vítima frente a vida, na qual se vê como mártir e se ressente dos outros que não sofrem da mesma forma que ela.
Saúde Mental e Dor – uma Relação de Mão Dupla
Só que também tem a via de mão dupla, a saúde mental e a dor é uma relação de mão dupla, o problema da saúde mental pode afetar e agravar a dor.
A relação entre dor crônica e saúde mental é complexa e bidirecional. A dor pode desencadear ou agravar transtornos mentais, enquanto a saúde mental é capaz de influenciar na percepção e na intensidade da dor.
Depressão
Por exemplo, a depressão é um transtorno mental comum em pessoas com dor crônica, é super comum e a tristeza, a falta de energia, a falta de alegria, a dificuldade na concentração podem ampliar a sensação de dor e dificultar o enfrentamento da situação.
Quanto mais depressiva está a pessoa, maior a sensação de dor, aquela dor que está ali é amplificada pelo cérebro. Está indo o sinalzinho de dor 04, quando chega no cérebro, ele amplifica, como se fosse uma dor 08. A depressão pode fazer isso.
Ansiedade
A ansiedade também é frequente em pacientes com dor crônica. A preocupação excessiva, a tensão muscular, a dificuldade de relaxamento podem aumentar a percepção de dor e até mesmo criar novas dores. Assim, cria um ciclo de sofrimento, a própria ansiedade também cria tensões musculares e causa dor.
Transtorno de Somatização
O transtorno de somatização é caracterizado pela presença de transtornos físicos persistentes, como a dor, por exemplo, que não podem ser explicados por uma condição médica geral. A ansiedade e a depressão podem contribuir para o desenvolvimento e a manutenção desse transtorno.
Dor Psicogênica
A dor psicogênica é uma dor real que não tem uma causa física identificável. Os fatores psicológicos, como estresse, ansiedade, depressão, podem desencadear e manter essa dor, que é difícil, porque investigamos o paciente, fazemos ressonância de cima abaixo, termografia (um exame muito bom para ver dor), eletroneuromiografia, biópsia de pele, de nervo, fazemos estudo de tudo quanto é jeito da pessoa e não achamos nada para poder embasar e explicar a dor.
Ela está sentindo dor, é igual quando alguém tem a perda de um ente querido, em que fala que dói o peito e dói mesmo, é uma dor física, não é do imaginário, a dor psicogênica existe, é real.
Hipocondria
A hipocondria, agora conhecida como transtorno de ansiedade da doença, em que a pessoa fica com ansiedade em termos de doença, é caracterizada pela preocupação excessiva com a possibilidade de ter uma doença grave, mesmo na ausência de sintomas ou com sintomas leves.
É tipo: a pessoa está com uma dor persistente no joelho, mas no imaginário vai ser uma doença grave, é um câncer que está lá, é uma infecção que é persistente e não vai conseguir nada, ou é uma doença autoimune grave que ‘vai ferrar a vida dela toda’, ao invés de ver que é uma dor no joelho, em que vai fazer exames, ver a causa e fazer um tratamento daquela dor, por mais crônica que esteja, ainda tem solução.
E ela fica caçando cada vez mais e quanto mais caça, mais amplifica o problema. Essa preocupação pode levar a uma busca incessante por exames e tratamentos. Além de amplificar a percepção da dor, não leva a um tratamento que dê resultado de verdade porque fica se perdendo muito no processo da hipocondria.
Eu tenho um paciente que foi uma história bem interessante. Ele chegou aqui queixando de umas dores totalmente estranhas, dava nas costas, depois era no braço, pegava as pernas, passava um bicho andando na cabeça, uma dor em fincada no peito e parecia que andava o corpo todo.
Ele chegou com um calhamaço, jogou na mesa e contou sua história, como começaram os sintomas e que investigou isso, aquilo na pernas, investigou isso com cardiologista, aquilo outro com ortopedista, investigou com ‘dermato’ e um monte de médico, fez uma ‘caralhada’ de exames. Está sempre preocupado em ter alguma doença grave, toda hora já viu, falou que leu que uns tipos de câncer de linfoma oculto causam esses sintomas, etc.
Então, o deixei falar, examinei, fiz os testes neurológicos e falei, “seu problema é que tem uma origem psíquica, temos que tratar isso”. Ele: “sabia que você ia dizer isso”, saiu e bateu a porta. Eu disse, “beleza, vai caçar um 13º médico”.
Passaram uns dias, ele voltou e eu falei, “ué, e aí o que aconteceu? Foi procurar o 13° médico não?!”, ele falou, “não adianta, já foi feito tudo e não está dando em nada, tenho que tentar isso. Por mais que eu não aceite, tenho que tentar”
Eu, “então, por mais que você não aceite, vamos tentar começar a tomar os remédios, a tratar, a fazer a Psicoterapia, Fisioterapia para dessensibilização da dor e a coisa vai dar resultado”.
E o fato foi que ele fez tudo certinho, tomou os medicamentos da forma correta, fez e ainda faz a Psicoterapia, porque amou, fez o tempo que deveria da Fisioterapia e, hoje, não tem mais dor nenhuma, faz só o acompanhamento e a manutenção do tratamento preventivo.
Poder do Cérebro – Exemplos de Controle da Dor
Precisamos também abordar sobre o poder do cérebro e como ele pode tanto aumentar a percepção de dor quanto diminuir a percepção de dor, uma vez que o cérebro possui a capacidade incrível de modular a dor, tanto para aumentar quanto para reduzir.
Por exemplo, lutadores de artes marciais, praticantes de ioga, aqueles iogues da Índia que fazem umas coisas de concentrar, treinos de concentração, treino de meditação para que consigam aguentar a dor.
Tem um exemplo que eu gosto muito que é do Jon Jones, um lutador de MMA famoso, que não esqueço. O cara estava socando freneticamente o oponente, tinha quebrado o dedo, uma fratura exposta (o osso saiu da pele, estava esguichando o sangue) e o cara não parou, ficou socando ainda o oponente tranquilamente, tipo por uns 16, 20 segundos, até nocautear o cara com o dedo fraturado e esguichando o sangue.
Então, o juiz levantou a mão dele, ele deu um pulo ainda comemorando, e quando o juiz mostrou o seu dedo do pé, aquele ‘negão ficou branco’ e começou a sentir dor. Ele nem sequer tinha se ‘ligado’ da fratura do dedo, para você ver como o estado mental põe ele de tal maneira que consegue suprimir a dor de uma fratura exposta.
Igual aqueles iogues da Índia que, para mostrar o controle da mente, furam a mão com espeto, atravessam a boca, o nariz com o espeto, deitam na brasa, deitam nos espetos, fazem essas coisas todas para mostrar que têm controle mental sobre a percepção de dor.
A pessoa não tem que virar um iogue, um lutador de MMA para treinar isso. Estudos mostram que a hipnose e a Terapia Cognitivo-Comportamental também são eficazes no tratamento da dor crônica, pois ajudam a pessoa a ressignificar a dor, a reduzir a catastrofização e a desenvolver estratégias de enfrentamento da dor e das situações. E a pessoa consegue literalmente reduzir a percepção de dor dela.
Opções Terapêuticas Individualizadas
Temos outras opções terapêuticas individualizadas, o tratamento da dor crônica tem que ser individualizado e também tratar os transtornos mentais associados, o que requer uma abordagem multidisciplinar individualizada.
É fundamental contar com acompanhamento de uma equipe de profissionais de saúde, incluindo médico, psicólogo, fisioterapeuta e outras especialidades. A Psicoterapia, em especial a Terapia Cognitivo-Comportamental, ou até mesmo o Psicodrama, auxilia na identificação e modificação de pensamentos e comportamentos disfuncionais, promovendo o bem-estar emocional e o controle da dor. Especialmente, se a pessoa teve traumas também que estão associados à dor.
A prática regular de exercícios físicos, a adoção de hábitos de sono saudável e o uso de técnicas de relaxamento também são importantes para o manejo da dor e da saúde mental.
Conclusão
Concluindo, a dor crônica e a saúde mental estão intrinsecamente ligadas. Reconhecer essa conexão é o primeiro passo para buscar ajuda e encontrar o tratamento adequado.
Lembre-se, você não está sozinho nessa jornada! Conte com o apoio profissional do médico da sua confiança para o tratamento certo. É possível viver uma vida plena mesmo com a dor crônica.
Se gostou deste conteúdo, escreva nos comentários o que acha da relação entre Saúde Mental e Dor Crônica, como já viu isso se manifestar na vida sua e na de outras pessoas, conte como fez para ter estratégias para manter sua saúde mental, lidando com uma dor crônica, faça suas perguntas no comentário.
E lembre, compartilhe, pois conhecimento, quanto mais compartilhado, melhor para todos.
