Síndrome de Tourette – Tiques, Causas e Tratamento da Síndrome de Tourette
Se você quiser saber sobre Síndrome de Tourette, que tem os tiques nervosos, as diversas manifestações disso, as causas e os tratamentos, fique até o final deste artigo, porque o Dr. Willian Rezende do Carmo, que no seu canal do YouTube fala sobre Dor, Sono, Parkinson, Emoções, Neurologia Geral e todos os assuntos que são do seu interesse, vai abordar sobre isso.
Neste conteúdo, vamos explicar sobre síndrome de Tourette ou também os famosos tiques. Vamos ter essa compreensão melhor de uma condição neurológica que causa tiques involuntários, repetitivos. Se você já viu alguém piscando sem parar, contraindo o rosto, emitindo sons, de forma inesperada ou repetitiva, pode ter presenciado um tique, tanto seu quanto de outra pessoa.
Mas o que é a Síndrome de Tourette?
A síndrome de Tourette é um distúrbio do neurodesenvolvimento que se manifesta por tiques motores, que podem ser desde piscar os olhos frequentemente, puxar o canto da boca, fazer movimento com a cabeça, com os ombros, ou tiques vocais “ah, ah”, como também ficar repetindo a fala de uma pessoa, “pessoa, pessoa, pessoa”.
Mas tem que imaginar que isso não é uma coisa voluntária. Imagine um espirro, que você não consegue controlar, vem aquele desejo e quando menos vê, fez um monte de movimentos super complexos, como fechar os olhos, expelir o ar com alta velocidade, contrair o corpo.
Todos os movimentos de um espirro são involuntários. Deu o gatilho, deu aquela vontade e quando menos vê, a pessoa espirrou e, às vezes, várias vezes em sequência e ela não tem controle sobre isso, ninguém espirra, por exemplo, de olho aberto. A pessoa tem uma série de movimentos que estão fora do controle dela.
Então, os tiques são movimentos ou vocalizações súbitas involuntárias e repetitivas, como esse espirro, por exemplo. E a síndrome afeta cerca de 1% da população, sendo mais comum em crianças e adolescentes do sexo masculino.
Quais são os Sintomas?
Os tiques podem ser motores, como piscar excessivamente, contrair o rosto ou fazer sons vocais, sons com a garganta, com a língua, podem ser pulos, dar pulinhos, pode ser mexer a cabeça ou o ombro, como a pessoa ficar fungando o tempo todo ou tossindo, raspando a garganta, dando pequenos gritos, repetindo palavras ou frases (a pessoa acabou de falar ‘carro’ e ela ”carro, carro, carro”).
E também, em alguns casos raros, pode acontecer a chamada coprolalia, em que emite palavras obscenas ou socialmente inaceitáveis sem perceber, sem ser necessariamente para ofender. A pessoa passa por um estresse e fala “filha da puta”, ela está feliz, “filha da puta, filha da puta”, isso é porque é um tipo de tique vocal.
O que Desencadeia os Tiques?
Diversos fatores podem desencadear ou piorar os tiques, como o estresse, a ansiedade, a fadiga, a excitação emocional ou até mesmo as doenças físicas, como infecções ou outras alterações de doenças orgânicas também. E é importante identificar esses gatilhos para ajudar a controlar os sintomas.
Então, uma coisa é a pessoa ter a doença da síndrome de Tourette, que é essa propensão para os tiques, outra coisa são os gatilhos para os tiques; não é em todo momento que a pessoa fica fazendo os tiques, tem os momentos que tem os gatilhos que facilitam de ter os tiques.
Qual é a Causa da Síndrome de Tourette?
Embora a causa exata seja desconhecida, acredita-se que a síndrome esteja relacionada a um dos desequilíbrios dos neurotransmissores, principalmente a dopamina, que desempenha um papel crucial no controle motor.
A mesma dopamina do Parkinson, que quando está faltando, a pessoa fica lenta e não produz o movimento, às vezes, quando tem o excesso de ativação, o excesso da atividade de dopamina contribui para movimentos excessivos, é muito fácil ativar algum comportamento motor quando tem o excesso da atividade da dopamina.
Quais são as Opções de Tratamento?
Felizmente, existem diversas opções de tratamento para síndrome de Tourette, desde medicamentos até terapias não medicamentosas.
Tratamentos Medicamentosos
O haloperidol, um antipsicótico, atua bloqueando os receptores de dopamina no cérebro, porque é feito para isso mesmo, para tratamento de esquizofrenia. A esquizofrenia, psicose, tem o excesso de ativação de alguns tipos de dopamina no cérebro e o antipsicótico bloqueia a atividade da dopamina, por isso, bloqueia a psicose, os delírios, toda a alteração psicótica do esquizofrênico.
Mas ela pode dar efeito colateral de deixar a pessoa mais devagar, mais lenta, ter, em alguns casos, sintomas parkinsonianos, que é o bloqueio de dopamina; muito bloqueio de dopamina causa sintomas parkinsonianos.
No haloperidol, ela pode reduzir a atividade de dopamina no cérebro do paciente com Tourette, o que reduz a frequência e a intensidade dos tiques; é uma opção de primeira linha para o tratamento da síndrome de Tourette e em casos de moderados a graves.
No entanto, tende a causar efeitos colaterais, como sedação, ganho de peso e sintomas extrapiramidais, que são movimentos, alterações tipo parkinsonianas (a pessoa pode ficar trêmula, devagar, rígida).
A deutetrabenazina é um medicamento que já está liberado no Brasil, é possível utilizá-lo, já temos disponível, e reduz a quantidade de dopamina liberada na sinapse, o que pode ajudar a controlar os tiques.
É uma opção para pacientes que não responderam bem ao haloperidol ou apresentaram efeitos colaterais intoleráveis. No entanto, a deutetrabenazina é cara e pode causar sonolência, depressão e também, às vezes, sintomas extrapiramidais, mas, normalmente, pode ser usada em casos mais graves ou quando, por exemplo, o haloperidol gerou muitos outros sintomas também, às vezes, é mais bem tolerável.
O tratamento com medicamentos antidepressivos, capazes de ajudar a controlar, por exemplo, um dos gatilhos como a ansiedade e o estresse tem como um dos principais medicamentos a fluvoxamina.
Este antidepressivo pode ser utilizado para tratar a ansiedade e o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o TOC, que são condições frequentemente associadas à síndrome de Tourette, ou seja, a pessoa que tem Tourette facilmente é ansiosa e é muito comum de ter TOC também.
Em alguns casos, a fluvoxamina igualmente pode ajudar a reduzir os próprios tiques em si. Eu já tive paciente que teve melhora dos tiques, basicamente, só com a fluvoxamina e foi um caso muito interessante. Ela alivia muito a ansiedade e a percepção de estresse, e se diminui muito esse gatilho, acaba reduzindo bastante também os tiques por consequência.
Temos igualmente o Canabidiol. O CBD é um composto não psicoativo da cannabis (o psicoativo é o THC) que tem mostrado potencial para reduzir os tiques em alguns pacientes com síndrome de Tourette.
Estudos clínicos ainda estão em andamento, mas os resultados preliminares são promissores. Um estudo recente de 2022 demonstrou que o CBD foi bem tolerado e eficaz na redução da gravidade dos tiques em pacientes com síndrome de Tourette refratária a outros tratamentos.
Ou seja, mesmo os pacientes que já estão mais graves, refratários a outros, quando foi acrescentado o CBD, teve uma melhora muito significativa da intensidade, gravidade e frequência dos tiques. E o canabidiol tem uma grande vantagem de, normalmente, ser muito bem tolerado, quase nada de efeitos colaterais.
Eu tenho um caso de um paciente que foi muito interessante. Ele veio para mim porque já estava tratando o Tourette com haloperidol e tendo pouco sucesso, não estava tendo tanto controle dos tiques e estava tendo muitos efeitos colaterais do haloperidol, ganhando peso, ficando meio lento, meio lesado, não se sentia bem com o haloperidol e ainda tinha tiques.
Então, o que fiz? Suspendi o haloperidol desse paciente e vi que era muito ansioso, coloquei a fluvoxamina e também o canabidiol. A associação da fluvoxamina com o canabidiol, nas palavras do próprio paciente, reduziu os tiques em termo de 80%, foi uma redução muito drástica, e quando tinha ainda alguns, eram muito pequenininhos e quando tinha gatilhos muito fortes, muito intensos.
O paciente ficou sentindo que seu dia a dia tinha ficado praticamente normal e, ainda assim, teve uma melhora de percepção da rotina porque houve uma redução da carga de estresse percebida, de ansiedade percebida e ficou cada vez mais confiante porque via que não ficava tendo tique na frente das outras pessoas o tempo todo.
Ele tolerou muito bem o tratamento, eu também indiquei um tipo de terapia comportamental, o que terminou de fazer o ajuste fino que precisava para controlar o tique.
É um caso de muito sucesso, no qual tiramos o haloperidol, que é um medicamento de primeira escolha, e tivemos muito mais sucesso com outros medicamentos que são um pouco mais alternativos e estão como opções terapêuticas, mas não como, por exemplo, a primeira escolha, como o haloperidol.
Tratamentos não Medicamentosos
Temos também os tratamentos não medicamentosos. A terapia comportamental (que é diferente da Terapia Cognitivo-Comportamental) vai atuar diretamente no comportamento. A terapia comportamental, como a terapia de reversão de hábitos e a exposição e prevenção de resposta.
Essa, especialmente, a exposição e prevenção de resposta, eu tenho visto um resultado muito interessante com os pacientes. Essas terapêuticas podem ajudar os pacientes a identificar os gatilhos dos tiques e desenvolver estratégias para controlá-los.
A terapia de reversão de hábitos ensina o paciente a reconhecer os impulsos pré-tiques e substituí-los com respostas mais adequadas. A terapia de exposição e prevenção de resposta envolve a exposição gradual aos gatilhos dos tiques quando o paciente é incentivado a não ceder aos impulsos.
Essa, especificamente, foi a que eu vi uma resposta muito boa do meu paciente e demanda treino, a pessoa tem que exercitar, é que nem fazer academia. Quanto mais exercita isso no dia a dia, mais forte fica, ela se expõe ao gatilho e já vai sabendo, se esforçando para controlar a resposta que seria o tique.
Lógico que vai se expondo aos gatilhos de maneira mais gradativa, mas quando exercita isso, vai se exercitando essa capacidade de não ceder aos impulsos, mais forte vai ficando, mais forte consegue controlar os impulsos do tiques quando vêm os gatilhos.
Tem igualmente a própria Psicoterapia, que pode ajudar os pacientes a lidar com as emoções, o estresse e os desafios sociais associados ao Tourette, porque esse tipo de paciente também sofre.
Se ele fica tendo Tourette, fica com vergonha, se sente humilhado, envergonhado na frente dos outros, a pessoa pode identificar os pensamentos negativos e as crenças negativas que podem contribuir para ansiedade e estresse, que são um gatilho para o próprio tique.
A pessoa já acredita que todo mundo vai estar vendo ela, pensando negativamente dela e só o ponto de ficar acreditando nisso já a deixa estressada quando vai lidar com alguém diretamente, e se fica já ansioso e estressado porque vai lidar, vem o tique. Então, a Terapia Cognitivo-Comportamental é muito boa para lidar com a parte psíquica que comumente está associada ao Tourette
Também tem a Fisioterapia que pode ajudar a melhorar a coordenação motora, força muscular, flexibilidade, o que pode ajudar nos tiques motores, especialmente tiques motores maiores, a pessoa que puxa o ombro, rola o ombro para trás, fica dando tiques maiores, tiques motores maiores e ajuda bastante a melhorar a qualidade de vida do paciente.
A Fonoaudiologia tende a ajudar a controlar tiques vocais e faciais, tanto daquela pessoa que fica puxando quanto daquela que fica, por exemplo, com a ecolalia, que é repetição involuntária das palavras de outro indivíduo, ou a palilalia, que é a repetição involuntária das próprias palavras, tipo alguém fala e o final da frase fica repetindo. A terapia fonoaudiológica pode envolver exercícios de respiração, técnicas de relaxamento, técnicas de modificação de fala e controle motor do rosto.
Neuromodulação
Temos também a neuromodulação. Em casos graves e refratários a outros tratamentos, a neuromodulação cerebral profunda, DBS, pode ser considerada. A DBS envolve implante de eletrodos em áreas específicas do cérebro que envolvem o controle motor. A estimulação elétrica dessas áreas é capaz de ajudar a reduzir a gravidade dos tiques. E esses são para casos muito refratários e muito graves.
Qual a Expectativa de Sucesso do Tratamento?
A síndrome de Tourette é uma condição crônica, mas com o tratamento adequado é possível controlar os sintomas e melhorar significativamente a qualidade de vida. A combinação de diferentes modalidades de tratamento, como medicamentos, terapias, canabidiol e, em alguns casos, a neuromodulação, pode aumentar a chance de sucesso em muito.
Mas lembre-se, cada pessoa é única e o tratamento deve ser individualizado.
Se você ou alguém que conhece apresenta sintomas da síndrome de Tourette, procure ajuda médica para um diagnóstico e um tratamento adequado. Juntos podemos controlar os tiques e viver uma vida plena e feliz.
Se gostou do conteúdo, escreva nos comentários o que acha sobre os tiques, a síndrome de Tourette. Se conhece alguém que tem isso, se você tem isso, relate como são seus tiques e o que fez para lidar com eles.
E escreva suas perguntas, suas dúvidas também nos comentários e lembre-se, compartilhe, pois conhecimento, quanto mais compartilhado, melhor para todos.
